"NO PAIN, NO GAIN" - Quão difícil tem de ser o treino?



Todos nós já ouvimos a frase “no pain, no gain em relação ao treino e ao exercício físico, transmitindo-nos a ideia de que para ter qualquer benefício do treino, o processo terá de ser doloroso: sem dor, não há benefício. Há quem utilize esta frase como mantra motivacional para si ou para os outros, há quem a utilize para descredibilizar processos de treino menos intensos, e há quem a utilize para dar significado ao sofrimento e desconforto que todos passamos nos treinos mais difíceis.

Sim, para termos benefícios do treino, temos de treinar a uma intensidade que seja acima do nosso limiar de adaptação, que será diferente de acordo com o nível de condição física de cada um. Uma caminhada é um processo agradável, mas para a maior parte das pessoas não representa um estímulo que aumente os níveis de aptidão cardiorrespiratória. Por outro lado, especialmente para quem não está habituado a praticar exercício, um treino levado ao limite pode maximizar as adaptações físicas, mas é um processo extremamente desconfortável que nos pode levar a não querer voltar a passar por uma experiência semelhante.

Um dos segredos para garantir a continuidade na prática do exercício está em garantir um equilíbrio entre a intensidade e o desconforto e por isso é que é importante que os treinos sejam versáteis e facilmente adaptáveis.

Mas o segredo da continuidade também está muito no significado que nós atribuímos à experiência.

Na vida, a maior parte das coisas que valem a pena são alcançadas com esforço. E é claro que todos sabemos as razões e os objetivos que nos levam a treinar, por mais distintas que sejam (saúde, estética, competição). Mas a visão de um objetivo final de condição física (além de fugaz), para muitos de nós pode não ser suficiente para nos fazer passar por uma hora de desconforto, durante 3 ou 4 vezes por semana. A ciência sugere que se virmos o treino apenas como uma altura do dia em que vamos ficar desconfortáveis, então a nossa vontade de voltar a repeti-lo é muito baixa.

Ao invés disso, se o foco for no processo em si, se virmos o treino como um momento de convívio, em que estamos em conjunto a tentar ultrapassar o objetivo comum de completar aqueles exercícios naquele tempo, em que o sofrimento e a motivação são divididos e partilhados por todos, então o significado que atribuímos ao processo é completamente diferente e muito mais motivante. Acresce o facto de que o exercício intenso promove a libertação de hormonas e neurotransmissores que causam sensação de bem-estar (endorfinas e dopamina), que também nos leva a querer voltar a repetir o processo.


Portanto, sim, o treino tem de ser minimamente difícil sob pena de nem valer a pena o esforço, mas não, não tem de ser só um momento de sofrimento sem significado, porque se assim for a vontade de desistir sobrepor-se-á. Nem todos os treinos têm de ser para matar, ou por oposição, não podem ser sempre uma simples caminhada pelo bosque!


Esta gestão de intensidade em função do nosso estado de humor e prontidão, é o que torna o processo viável a longo prazo...


Bons treinos!

Bibliografia:


https://www.nytimes.com/2022/09/30/well/move/how-hard-workout.html

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25921307/

https://link.springer.com/article/10.1007/s11031-018-9697-z



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